O repto do Luís Bento

Publicado por: Ana Martins   
Outubro 11th,
2009

É verdade, fui eu que comecei, com um desafio ao Luís Bento numa conversa no Facebook depois de um texto excelente que teve a coragem de publicar.

Olha Luís, desafio-te a colocares uma personagem fictícia no Blog logo a seguir às 20h de amanhã, a saber o resultado das eleições, sendo esta pessoa candidata a uma qualquer edilidade fictícia, porém nacional. Aceitas?

O Luís Bento não se fez rogado

Bom dia! Aceitei o desafio e lanço-te também um repto. E que tal lançares um personagem fictício onde abordes dois temas? Redes sociais e preconceito? Por ex: o número crescente de amizades nas redes sociais que o personagem tem , mas que se evapora quando o conhecem ao aparecer em cadeira de rodas acho que é um bom ponto de partida. Eu sei que o tempo é curto, mas vais fazer-nos uma boa surpresa!

Escusado será dizer que reclamei. Preconceito não teria de ser deficiência (posso ter folga do tema…?!) e pedi latitude para fazer algo de diferente. Concedido. Perguntei ainda se queria personagem  – ele ou ela – sendo pedido a la carte e assim ficou selado o nosso pacto de publicar às 20h nos Blogs.

ele ou ela. seja. vai ser o título e dou a volta em torno disso.

.

.oO (Não esperava ver chegar este desafio ao Brasil
até ao Blog Varal de Ideias )

.

desafio

ele ou ela

Publicado às 20h em simultâneo com o blog Bento Vai para Dentro

Maria Amélia. Era a sua alcunha desde o tempo de escola. As crianças sabem ser cruéis, diz o povo, mas Mário sempre achara que gratuitamente magoavam os adultos com um prazer exacerbado. De facto, a sua voz tinha um timbre efeminizado, mas não comprometia em nada a sua orientação sexual. Gostava delas, giras e boas. Problema era chegar-lhes perto. Quando o viam era de tirar a respiração, lindo de não viver, um Brad para pita nenhuma meter defeito. Até o ouvirem. Ao som da primeira frase já sabia o que se seguia: olhares rápidos que se cruzavam, sorrisos contidos nuns lábios apertados ou mesmo risadas mal disfarçadas e um décimo de segundo nem uma das miúdas se lembrava como era lindo, como era perfeito, como era normal.

Adolescência tramada, disfonia hipocinética, é um nome complicado para uma patologia que se manifesta logo em criança com hipotonia muscular, vulgo, voz fininha, mariquinhas ou, como infinitas vezes ouviu na sua vida, aquele remate de anedota gasta: «Com esta é que me tramaste!»

A primeira vez que conversou no messenger com a amiga de um amigo descobriu a solução para o seu problema: a possibilidade de conversar calado era algo de que nunca se tinha lembrado! Isso fora há dez anos. Depois dessa conversa tinha descoberto pessoas nas redes sociais que jamais falariam com ele. Recusava a conversação por vídeo alegando não ter web cam, estar num hotel em qualquer parte do mundo – viajava o tempo todo na sua realidade virtual – evitava os encontros presenciais dos grupos de amigos, até tinha o cuidado de não usar cedilhas ou pontuação especificamente portuguesa. Resguardava-se numa personagem que criara de si próprio com o único intuito de proteger o seu timbre. Continuava a ser chacota furtiva na vida real de colegas de trabalho, da família, dos amigos. Namoradas não se lhe conhecia nem uma, mas nas fotografias que publicava no Facebook tinham legiões de comentadoras assíduas e no Twitter era campeão de seguidoras no feminino.

Verdade que essa forma continuada de mentir a si mesmo o convenceu, tanto tempo depois de o conhecerem, não seria assim tão errado tentar encontrar-se só com uma miúda, a Rita, que tanto o atraía e ver no que dava. Foi um desastre cujas repercussões já conhecia: a miúda gira riu «kikikikikikikikikiikiki» na cara dele assim que ele disse a primeira frase e, sem cerimónia, rodou os calcanhares de volta à sua vidinha fútil e insensível. Mário ficou acabrunhado no balcão do bar, atirou fora a palha ainda selada e bebeu a caipirinha com sofreguidão. Não queria acreditar. Aquela miúda que lhe tinha contado a vida toda, noite após noite – nas longas e intensas quatro semanas que se conheciam, tinha voz de galinha, ria como uma choca poedeira e gorgolejou a rir da sua voz de Maria Amélia?! Não seria a pessoa que o poderia entender? Se não em decibéis, em que mais se achava superior? Pediu uma outra caipirinha, que voltou a beber exasperado de um só trago. Ligou o seu iphone na busca de algum alento. A conversa na sua timeline fê-lo endireitar-se no banco. A @riiiitaribs tinha twittado, havia 10 minutos, o encontro relâmpago com @marioxxx e como se tinha retirado.

«o nosso kido @marioxxx nao eh bonito ah toa ele eh gay hihihi :-D »

Bastou um serão e arruinou a reputação. Sim, era bonitinho demais, comentavam sem dó quem outrora morria por ele, como se não o soubessem presente na timeline, como se, a ser verdade o que se dizia (já ia muito além das declarações iniciais da @riiiitaribs), tinha gestos dignos de um Nelo sem pochette e usava lingerie de gaja. Como era possível…?!?!

Ainda sentado no balcão do bar, acumulavam-se na sua frente o prato de copinhos de shots de fruta, já não conseguia ler bem o visor que lhe parecia agora menor. Crucificado sem pejo em plena timeline. Ao espreitar as DM  uma mensagem da @soniangel:

«@marioxxx Sou @soniangel Terapeuta da Fala e penso que Disfonia Hipocinética lhe é familiar. Por favor entre em contacto comigo. Posso e quero ajudar.»

———————-

N.B. – Também as pessoas nas redes sociais se uniram neste desafio: Em pesquisa para a patologia “voz fininha”, depois de espreitar os meios normais que utilizo, necessitei de uma mão sábia e pedi ajuda via DM ao médico e twitter @LuisPais que simpaticamente me enviou a documentação necessária e os esclarecimentos que necessitei. Fiquei muito grata – o tempo urgia – mas a simpatia do Dr. Luís Pais é contagiante e sabia só se não pudesse me daria a mão. Obrigada a ambos com mesmo nome – Luís! :) A última palavra para o @LuisBento para agradecer ter tido a coragem de aceitar o desafio. Eu sei que não lhe era fácil e foi  exactamente por isso mesmo que o encorajei a dar este passo. Eu sabia. O Luís Bento escreve e bem – teria capacidade de o fazer e ainda assim de me surpreender com a qualidade de seu conto. ;) Parabéns Luís Bento! Qual escriba, qual escrevinhador… temos Escritor!

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13 Comentários for "O repto do Luís Bento"

Soberbo! Uma narrativa fluida, actual, irónica, num ritmo atractivo e com um final surpreendente! Eu sabia que nos ias surpreender com algo novo!
Muito bom!

Ana Paula Motta

Adoro esses finais de “virada” .Parabéns!!!

Repito o dito no blog do desafiado/desafiante:
para o pouco tempo, e um tema complexo como esse, seu texto é completo e repleto de boa literatura!
Parabéns, escritora!

Ainda volto, de novo, para além de te agradecer e me sentir orgulhoso pelo desafio, o que me move, neste momento é o reconhecimento, uma vez mais, da extrema qualidade do teu texto. Nunca tinha pensado nessa perspectiva… e ela existe! E foi retratada com mestria, humor e muito humanismo.

Bárbaro;
a idéia do desafio
e a réplica!
Bom pra nós leitores;
ganhamos de canja duas maravilhas.
Parabéns!
li

Palavras para quê ?
Trata-se da Ana Martins…
A mulher que nunca baixou os braços a um único desafio.
E o seu maior é da própria vida e que tanto lhe tem trazido de positivo.
Desafios ? Prueba superada !!! (pensa ela sempre que lhe aparece algum)

Parabéns pela troca de “galhardetes” que resultou num perfeito despertar de sentimentos de parte a parte e que não deixa nenhum leitor indiferente.

Mina

Pela tua escrita se prova que a criatividade não tem tema. E que não é para quem quer é para quem sabe dar tonalidades ás palavras colori las com sentido.
Pudiam te dar um tema de “Blá blá” , que tu tranformava-lo em arte…
Parabéns a ambos os criativos…
E continuem com essas “provocações” rsss
Então esse tema das redes sociais tem muito pano para mangas, e que tu muito subtilmente conseguiste juntar no teu personagem ainda adicionando o preconceito é de mestre ou seja mestrina lool
Bjos

Fantástico!!
Que criatividade..
Adorei.
Parabéns
Beijos
Regina d’Ávila

Cátia

Boa noite Ana! Como está?
descobri hoje este espaço através de uma pesquisa na net. Estou a escrever um artigo com o tema “A visão da família perante o Espectro de Autismo de Alto Funcionamento”. Será que a Ana conhece mães que me possam responder a uma entrevista via e-mail? Desde já muito obrigada pela colaboração e atenção despendida!
cumprimentos

Parabéns…!! Gsotei muito!!
Para pouco tempo, fluiu com criatividade e talento…
Beijos,
Ana Lúcia.

Deixei um recado lá no Varal de Ideias. Nem pensar que quis ofender. Acho, aliás, a iniciativa muito interessante. Desculpe eu ser meio irónico. Voltarei aqui com mais calma.

Ana,
por este post e pelo conjunto da obra, seu blog HOJE é homenageado no BLOG VICIADO!

Bjs e parabéns!

Fernando Teixeira

Muito bom. Uma fluidez deliciosa!
És grande!

Parabéns!

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