Livros de uma vida #13

Publicado por: Ana Martins   
25 de February,
2010

Hoje trago: «Enamoramento e Amor» de Francesco Alberoni

enamoramento e amor.

Marco_fotocafeiris Fui gentilmente convidada pelo Marco Domingos a integrar a equipe do seu programa matinal, Café com Irís, na Rádio Irís FM - 91.4 - com uma rubrica de literatura: a cada terça e quinta-feira, às 9:45h «LIVROS DE UMA VIDA»

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Ana Martins

LIVROS DE UMA VIDA

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25-02

«O Enamoramento e o Amor» de Francesco Alberoni

Volto a Francesco Alberoni, por considerar estes os dois livros essenciais da sua vasta colecção de ensaios. A meu ver, depois de escrever estes dois livros, seria desnecessário escrever todos os outros, uma vez que recorrentemente busca, nestes, as noções que já escreveu para as reescrever. Todos os outros ensaios complementam a colecção sem contudo serem a pedrada no charco que estes dois livros, «A Amizade» e o «Enamoramento e Amor», foram.

No «Enamoramento e Amor» acentua o carácter perene e apaziguador do amor e o que chama ser a revolução do enamoramento. Alega que uma pessoa pode amar e contudo se enamorar quando realmente almeja a mais. E por enamorar-se, não se refere unicamente ao sentir por um outro indivíduo (do mesmo género ou não) é audaz ao afirmar que se enamora com facilidade (e não com leveza) aquele que vive apaixonado pelo ser, pelo dar, seja pelos filhos, pela profissão, pela vida!

«Não é a nostalgia de um amor que nos faz enamorar, mas a convicção de não termos nada a perder tornando-nos naquilo que somos; é a perspectiva do nada à nossa frente. Só então se constitui dentro de nós a disposição para o diverso e para o risco, aquela propensão de nos lançarmos no tudo ou nada, que os que estão de qualquer modo satisfeitos com o que são não podem experimentar.»

«O Enamoramento e o Amor»,  Francesco Alberoni, Bertrand, 1979

Livros de uma vida #12

Publicado por: Ana Martins   
23 de February,
2010

Hoje trago: «A Amizade» de Francesco Alberoni

amizade.

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LIVROS DE UMA VIDA

23-03

«A Amizade» por Francesco Alberoni

Francesco Alberoni neste livro consegue dissecar em todos os seus cambiantes o sentimento mais belo, profundo e puro que pode unir duas pessoas. E sim, esse sentir é a amizade.

Desde o princípio a amizade rege-se por “encontros” não necessariamente físicos. Importa a próxima vez que se encontra o amigo e a amizade fica em suspenso até então. Não existe “o tempo” nem a sua cobrança. A Amizade é sempre autêntica, honesta, desprendida. É um dar sem pedir em troca, apesar da componente “reciprocidade” porque se esta não existir, não é verdadeira a amizade. É o único relacionamento que não se coaduna com a ambivalência.

O excerto que vou ler é o quebrar de uma amizade, porque acho que Alberoni o descreve de uma forma sublime.

«A mola da amizade, recordemo-lo, é o encontro. De uma maneira geral a amizade absolve, perdoa. Se é o perdão, o perdão é definitivo. Mas, se não existir o perdão, se houver a condenação ou a simples dúvida, a amizade está quebrada para sempre. Mesmo a simples dúvida. Porque a dúvida avilta a amizade, contamina-a. A amizade necessita da pureza. Basta um inquinamento infinitésimo e a substância já não é pura. A crise da amizade não depende da vontade. Quando a amizade se quebra, podemos procurar salvá-la, conservar uma atitude amigável, fingir que nada aconteceu, mas é inútil. A Amizade tem uma substância moral. Uma vez perdida a confiança, perdeu-se para sempre. A crise da amizade portanto é um processo. O passado é reevocado para ser julgado. O futuro é invocado porque tem de ser determinado. “E a decisão é sempre inapelável.”»

«A Amizade», Francesco Alberoni, Bertrand Editora, 1984

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Livros de uma vida #11

Publicado por: Ana Martins   
18 de February,
2010

Hoje,  a brincar a falar a sério, trago:

«As boas raparigas vão para o céu as más vão para todo o lado» de Ute Ehrhardt

as boas raparigas

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18-02

«As boas raparigas vão para o céu as más vão para todo o lado» de Ute Ehrhardt

Ainda da réstia do brincar ao Carnaval e não sendo apologista de livros de auto-ajuda, hoje trago um livro para – a brincar – falar um assunto sério. Esta autora, cujo nome não me atrevo a pronunciar (Ute Ehrhardt), num tom jocoso, sem nunca deixar de ser assertiva, ensina a uma geração de mulheres educadas na senda “nascida-para-casar” a reaprenderem as regras do jogo e, muito particularmente, a saberem dizer N-Ã-O.

«As raparigas bem comportadas estão proibidas de dizer palavrões, expressões ou alusões sexuais fortes. Esta área linguística é domínio do homem. É pouco feminino exprimir-se de maneira agressiva ou obscena. A “merda!” proferida por um homem não causa o menor espanto. Mas dita por uma mulher, chega para assustar um grupo inteiro. No entanto, as mulheres não notam que prescindem de expressões fortes. Elas raramente se permitem ter reacções ordinárias. Por vezes, sentimo-nos melhor depois de dizer um palavrão, e até as mulheres se sentem aliviadas quando libertam a pressão dessa maneira. Calam-se muitas vezes, porque querem evitar conflitos, porque preferem calar-se a dizer alguma coisa ofensiva. Em vez de contra-argumentarem com os homens, as mulheres amuam e calam-se. Na melhor das hipóteses, é uma amiga que vem a saber o que elas pensam de facto.»

As boas raparigas vão para o céu as más vão para todo o lado», Ute  Ehrhardt, Editorial Presença, 1994

Livros de uma vida #10

Publicado por: Ana Martins   
11 de February,
2010

Hoje trago: «Gostaria de ter alguém à minha espera num sítio qualquer» de Anna Gavalda

livro-Anna-Gavalda.

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LIVROS DE UMA VIDA

11-02

«Gostaria de ter alguém à minha espera num sítio qualquer» de Anna Gavalda

Este é um livro de contos absolutamente irresistível.

Começa levemente e entranha-se… se pensamos que será fácil, não o conseguimos ler de uma só vez. Como se uma mão imaginária nos travasse a cada final de um conto que nos obriga à reflexão. Aparentemente de leitura tão acessível e tranquila, a autora põe-nos em confronto com situações limite ou inverosímeis, mas é um soco surdo no estômago. É necessário tempo para a sua inteira digestão. Porque é uma leitura que nos entra no sistema.

«Como não conseguia dormir, a minha mulher fez amor comigo com muita doçura. À meia-noite estava outra vez na sala. liguei a televisao e procurei um cigarro por toda a parte. À meia-noite e meia, aumentei um pouco o volume para o último telejornal. Não conseguia tirar os olhos do monte de lata espalhada nos dois sentidos da auto-estrada. Que disparate. E eu pensava: esta gente é mesmo estúpida. Depois um camionista apareceu no ecrã. Vestia uma t-shirt a dizer Le Castellet. Nunca esquecerei o seu rosto. Esta noite na minha sala, o tipo disse: “Está bem, havia nevoeiro e é verdade que as pessoas iam depressa demais, mas esta merda toda nunca teria acontecido se o outro cretino não tivesse feito marcha-atrás para enfiar pela saída de Bourg-Achard. Eu vi tudo da cabine. Necessariamente. Houve dois que abrandaram ao meu lado, depois ouvi os outros a enfiarem-se uns nos outros como manteiga. Acreditem se puderem, mas eu não via nada pelos retrovisores. Nada. Branco. Espero que isto não te tire o sono patife.” Foi a mim que ele disse. A mim. A mim, Jean-Pierre Faret, em pêlo na sala.»

«Gostaria de ter alguém à minha espera num sítio qualquer», Anna Gavalda, Publicações Dom Quixote, 1999

Livros de uma vida #9

Publicado por: Ana Martins   
9 de February,
2010

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LIVROS DE UMA VIDA

9-2

«Literatura Very Light» de Nuno Gervásio

Gostava de dizer que pedi licença ao Marco Domingos para falar deste autor hoje, uma vez que é público – o Nuno Gervásio é um querido amigo e meu parceiro de trabalho do projecto ShotStories.

Estreia-se hoje, dia 9 a peça de teatro «Elisabeth» no Instituto Franco-Português em que se estreia também o Nuno Gervásio como co-autor, desta vez num registo bem diferente do humor.

E Marco, se não te levantasses tão cedo para o Café com Iris, convidava-te para a ante-estreia…

O Literatura Very Light é um livro hilariante, inteligente que se lê de sorriso parvo e constante no rosto. É um autêntico manual de humor contagiante e uma viagem divertidíssima ao imaginário do Nuno – o texto seguinte é melhor que o anterior e sempre neste crescendo.

Fala sobre temas tão díspares como sexo, alcunhas carinhosas, despedidas de solteiro, mulheres, Soraia Chaves e lavandarias, ou toda uma série de teorias sobre os assuntos mais improváveis.

O autor garante 50 gargalhadas bem dadas – ou o dinheiro de volta.

«Estão a ver aqueles escritores que aparecem na contracapa ou na badana dos seus livros com a mão sobre o queixo num género de fotografia que todos consideram como “pose intelectual”? Nada disso. É simplesmente para esconder a papada. Aposto que 99% dos escritores que assim posam estão a pensar: “Caraças pá, eu sou tão brilhante, escrevo umas coisas tão porreiras, não é justo que me tenha aparecido esta espécie de bócio aqui à vista e toda a gente. Gaita para isto!” Lembrem-se desta bonita imagem quando estiverem com um livro na mão a observar a fotografia do autor.»

«Literatura Very Light», Nuno Gervásio, Cherry Entertainment, 2009

anamartins.com de aniversário marcado

Publicado por: Ana Martins   
8 de February,
2010

Nasceu de uma brincadeira tola  no Twitter – advogar por um amigo (que em abono da verdade, nem precisava dessa ajuda). Mas a resposta perfeita à provocação que lhe faziam, eu tinha-a escrita e guardada.

Nesse momento apeteceu-me partilhar e à pergunta “Onde posso publicar para lerem?” uma outra voz disse:

“Faz um Blog!”

(foto gentilmente cedida por Bárbara Carvalhal)

E até me ajudou durante aquela tarde a construí-lo. Eu nunca quis escrever num Blog, ter um Blog menos ainda! Inicialmente de nome «Blog para que te quero» anunciava-se o meu voltar costas, mas fui mordida pelo bichinho e aterrei no século XXI antes de ter tempo para decidir se realmente o queria fazer. Hoje não volto costas e no dia 14 de Fevereiro, já não sendo Blog, mas tendo crescido a Site – anamartins.com – dou a cara e o nome. Assim mesmo, de ganga vestido.

anamartins.com_logo

  • Porquê dia 14 de Fevereiro?

Não deixa de ser irónico, festejar o aniversário deste espaço logo em data que abomino – o dia dos namorados. Mas foi exactamente por isso (a meu ver, namorar, namora-se todos os dias) e tendo um texto jocoso escrito, nasceu nesse mesmo dia o Blog para publicação desse conto inicial. Hoje republico-o, com a nuance na música escolhida para acompanhar a leitura.


Cupid – Amy Winehouse

Dia dos Namorados

(ou o Dia-Oficial-do-Manel-levar-a-Maria-à-rua)


Irene já se tinha esquecido: há muito tempo prometera a si própria que nunca mais sairia à noite num dia de namorados. Mas aconteceu. Com amigas, alheadas da comemoração, na sua nova “solteirice”, combinaram ir todas ao Japonês.
Ao entrarem no restaurante habitual depararam-se com um invulgar burburinho – infernal!, nem conseguiam avistar o dono! Todas as mesas estavam preenchidas apenas com casalinhos, até ao redor da zona Teppan-yaki – coisa que pretendiam – estava ocupada por parzinhos, claro!, “restaurammm” da moda e caíam lá todos que nem tordos na noite de saída!
“Socorro! Saímos no Dia-Oficial-do-Manel-levar-a-Maria-à-rua!!!!” – Brincou. Alguém sugeriu mudar de restaurante, mas não adiantaria àquela hora, sem marcação, estariam todos a transbordar de Manéis&Marias.

Antes, imagina-os:

Olhou à volta. Irene não tinha nada a opor ao amor ou a sua celebração, apenas o que chamava de “Dia Oficial”, uma representação patética do que deveria ser, por definição, celebrado todos-os-dias-e-todas-as-noites-das-nossas-vidas.

O Manel pespega uma beijoca à sua Maria logo pela manhã antes de sair para o trabalho – ela falou tanto nisso na véspera, entre o intervalo do futebol e o creme de noite que ele teve pesadelos do mês sem sexo que sabia, ela imporia, se ele ousasse esquecer…

A Maria, nesse dia sorri feliz, usa roupa nova, vai ao cabeleireiro – muita laca, muito caracol – compra um postal cor-de-rosa já preenchido, tipo-basta-assinar e uma prendinha bem fofinha para o seu Manel pôr no carro – coisa que ele jamais usará ao lado do galhardete do seu clube do coração…

O Manel, mais pragmático, compra o que ela discretamente lhe pediu durante a última semana toda, incluindo, a seguir à beijoca matinal sem sumo.

A Maria papagueia com as suas colegas de trabalho onde poderá ser levada mais logo a jantar. Todas graciosamente fazem crer umas às outras que não sabem o local e/ou a prenda.

O Manel, à tardinha, entre bejecas e tremoços, ri com os amigos que, este dia dos paleios cor-de-rosa, até foi uma coisa bem inventada: é uma noite que seguramente elas não irão passar a ferro até tarde, lhes doerá a cabeça ou terão o período…

A Maria já passou em casa da Mãe, depositando os filhos com um bem disposto: “Até amanhã!”

O Manel foi à florista.

A Maria chegou a casa mais cedo, tomou uma chuveirada e rapou os pêlos.

O Manel passou horas na fila da florista, rosnando.

A Maria passa o gloss mais uma vez pelos lábios ainda bonitos e com pouca procura.

O Manel chega a casa com um previsível ramo de rosas vermelhas, reclama por lhe ter custado 50 euros e, claro, «a» prenda.

Ouve-se na casa do Manel e da Maria uma palavra inusitada: Amo-te

Saem para a rua. Está tanto trânsito como de dia. Vão a um restaurante com folhas de papel branco por toalha.

O Manel pensa: “A TV desligada, que má sorte a minha, espero que alguém repare… se digo alguma coisa, lá se vai a queca.”

A Maria suspira: “Ele vestiu a camisa mais velha, logo hoje… qualquer dia rasgo-a e faço panos para os vidros.”

Irene respirou fundo e olhou em volta enquanto ainda esperavam mesa. Sentiu um ambiente dengoso nas mesas. Não se distinguia a música do ruído. Contrastava a elegância dos pratos deste espaço usualmente relaxante, seguro pela perplexidade serena dos empregados com o frenesim de tão inusitados clientes que até pediam, imagine-se… karaoke.

Irene lembrou-se daquela outra noite, não há tantos anos em que ficara inoculada da noite dos namorados. Presa num extraordinário trânsito para aquela hora tardia, olhou à sua volta: Estupefacta, viu o Manel ao volante com a Maria ao lado em todos os carros! Havia a versão casados-há-muitos-anos visivelmente enfadados pela demora e os namoradinhos que ainda disfarçam hostilidades cortesmente. Olhara para o João, o seu marido, para o seu olhar vazio esperando que o trânsito fluísse. Sentiu um arrepio: era apenas mais um Manel, o que, lamentavelmente, fazia dela mais uma Maria.

Decidida a que o Manel e a Maria não lhe estragariam mais nenhuma noite, olhou de novo à volta, desta vez com a sua firmeza acutilante.

O frete.

Estavam todos a fazer frete! Tinham saído à rua somente porque tinham de fazê-lo!… Todos sorriam complacentemente enquanto gramavam polidamente a estopada.

Todos não.

De indicador em riste anunciou, peremptoriamente, às suas amigas cansadas de estar em pé:

“O único casal a sério nesta sala, é aquele ali do canto.”

“Como sabes?” Perguntara a Bárbara.

“Sei. Sinto. São os únicos que estão a conversar.” Argumentou encolhendo os ombros.

Contrapuseram, estando num restaurante repleto de sons estridentes, com outros pares que tagarelavam demasiado alto.

“Estão apenas a falar. Reparem no olhar, estão apenas a falar, não estão a conversar.”

“Na mesa mesmo atrás de nós estão os piores espécimes de Manéis&Marias – sussurrou rindo a Maria Clara enquanto se sentavam – os broncos!

Olhavam causticamente para trás. Versão cromanhon-namoradinhos, diziam à socapa. Tinham de estar dois pares
à mesa! Claro!… aos pares, se não, com quem é que eles haveriam de conversar???

Sem estranheza, Irene ouviu um dos rapazes protestar bem alto, com os pauzinhos em riste, pedindo talheres de gente, o outro palerma reclamar do peixe estar mal passado, uma das Marias dizer que o gengibre eram «pétalas de flores comestíveis», que «tinha lido numa revista» até ao momento hilário em que um comeu de uma só vez o “pistachio”, urrou que nem um urso que o tinham enganado… sem mencionar a boa parte da noite a ouvi-los contar anedotas pouco edificantes sobre mulheres… que apropriado! – pensou – mas o melhor ainda estava para vir. Quando entrou uma figura típica da noite, empunhando a habitual braçada de rosas, uma daquelas Marias deu uma valente murraça na mesa afiançando ferozmente:

“Eu hoje vou querer uma rosa!!!”

Até os outros Manéis&Marias das demais mesas tiveram dificuldade de suster o riso… Resta acrescentar o que já todos sabíamos, se calhar, até ela: não a teve.

A pouco e pouco todos os Maneis e Marias foram saindo. Era noite de festa lá em casa ou no banco traseiro do carro! Há casais que são abusivos durante todo o ano, seja verbal, física ou psicologicamente, mas Deus os livre de não festejarem o dia dos namorados!

Ficaram embrenhadas na conversa boa e no último sake gelado, depois do ritual de sabores nipónicos numa refeição memorável onde, como manda a tradição, nem um único bago de arroz foi desperdiçado, quando o tema de início de conversa, voltou à baila: As únicas mesas ainda ocupadas, agora sim, naquele tranquilo e prazenteiro restaurante, eram apenas a das amigas e a do tal casal do canto.

Ficaram a reparar e comentar ostensivamente nos detalhes sem que nunca sequer dessem conta. Era a mulher que estava virada na direcção delas. Tal como as amigas, não tinha estreado roupa nova, não tinha ido ao cabeleireiro, não havia nenhuma rosa vermelha do ké-frô na mesa.

Era particularmente bonita, como só uma mulher segura de si consegue pôr um lápis a segurar-lhe o cabelo, vestir uma qualquer t-shirt branca com jeans e… estar bem.

Irene entretanto contava uma situação que ouvira num supermercado na véspera. Estava no corredor dos desodorizantes quando tomou atenção numa frase: “Olha, não tenho ideia nenhuma, pode ser já isto? Ficava já despachada para amanhã.” Irene sorrira ao se aperceber que falavam da prenda para o Dia Oficial. Que romantismo!, claramente uma Maria! Continuando as suas compras, ficou com atenção ao diálogo: “…ou então, pode ser este perfume…?, é que nem sequer é caro!”

O grito masculino ecoou pelos corredores:

“N-Ã-Ã-Ã-O!!!!”

As pessoas, às compras, entreolharam-se, mas ninguém se pronunciou quando a discussão estalou. Num casamento, quem vai meter a colher? Irene também olhou por cima do ombro. Pensou que fossem mais velhos, mas era um casal muito novo, reconheceu a vergonha só no tremor do queixo daquela rapariga que continuava a dizer tontices com ar subserviente enquanto ele lhe virava as costas e a deixava a falar para as prateleiras.

Respeito. A ligeira diferenciação entre um casal e um Manel&Maria.

Quando saíram do restaurante, o casal da mesa do canto continuava a conversar. Nunca deram pelas outras pessoas que tanto os observaram.

Irene deu um último relance ao casal antes de sair.

Apeteceu-lhe, por um momento, que soubessem que eram o seu prémio casal da noite, afinal fizeram-na acreditar que não eram apenas os Manéis e as Marias que saltavam para fora de casa nesta noite… mas, sempre soube que casais como este, não celebra o seu Amor apenas porque algum grupo de comerciantes resolveu importar uma moda que nem é nossa para aumentar um pouco mais as vendas – criaram portanto este pomposo evento a comemorar – leia-se a comprar.

Sorriu ao casal da mesa do canto e pensou, apesar de ter escolhido o divórcio para si, viver a dois, vale realmente a pena – quando vale a pena, respirou fundo e imaginou todos os casais que sabem: alimentar o amor é uma tarefa diária, construtiva, constante… todos-os-dias-e-todas-as-noites-das-nossas-vidas.
Podia estar sozinha nessa noite, poderia continuar sozinha na vida, mas Irene sorriu. Enquanto esperavam para pagar, abriu o seu Moleskine e escreveu: “Há, é uma forma diferente de ver e viver a vida, o que nos torna loucos aos olhos dos que levam uma vidinha triste e sem sabor. A nossa, sabe a morangos com chocolate, até, quem sabe, sake e wasabi, se e quando deixamos a parte picante entrar na nossa vida.”

OS SETE PECADOS MORTAIS: A AVAREZA

Publicado por: Ana Martins   
6 de February,
2010


Desafiei um amigo.

Escrever, sim!

Aceitou.

Será o meu convidado especial neste site durante se7e semanas.

Nas palavras de Vasco Catarino Soares no seu site:

“Vou aqui postar uma série de 7 crónicas (7 Pecados Mortais) que me foram solicitadas (2005/2006) pela, Portuguesa, Revista ClickIn (Revista Feminina). Na altura pediram-me para não imprimir um cunho demasiado científico às crónicas. Resolvi, não só retirar a tal cientificidade, como dotar as crónicas de cunho descontraido (por vezes demais). Na época tiveram o seu sucesso. Sem mais delongas aqui vão elas. Uma de cada vez.”

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Leia os pecados já publicados durante as se7en semanas:

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Aural Planet – Sunfruits Avenue

A Avareza

por Vasco Catarino Soares

Ávaro. Forreta. Unhas-de-fome. Mão-de-finado. Sovina. Mão-de-vaca. Mesquinho. Miserável. Somítico. Pão duro. Todos estes qualitativos são extremamente úteis a quem tem de enfrentar, por alguma perversão do destino, um conhecido ou familiar, que adora (sem reservas morais) guardar, reter ou acumular. Seja ele o que for. Dinheiro, comida, informação, pioneses ou afecto. O que for.

Só que esta é sempre uma estória que tem um início triste. E normalmente não tem nada que ver com falta de dinheiro. Ou por outra, não é, directamente, um início de vida de privação de bens materiais que leva alguém a ser forreta. O que faz com que alguém tenha uma necessidade desmedida de não gastar tostão é uma falta, uma carência, mas de tonalidade afectiva e não material.

Ok! Lá estão vocês a dizer que é conversa da treta e que é como o Povo reza: “O que se come em chibo não se come em bode”. Como quem diz: quando há faltas materiais em pequeno, guarda-se o mais que se pode em adulto. A lógica até nem é má de todo – o medo de passar pelas privações do passado levava estas pessoas a prevenir-se. O ponto de vista é que é superficial. Não é a privação material que assusta. O que mete mesmo muito medo é o deserto afectivo. É imaginar e sentir que não há alma neste mundo que goste, que ame ou se preocupe connosco. Este é o horror dos horrores. Qual sexta-feira 13! Qual exorcista!

Mas ao contrário dos contos de fadas, em que depois de várias tragédias e começos infelizes, tudo acaba bem, aqui o fim pode ser ainda mais triste, e sem recuperação afectiva.

Também é certo que um bom mão-de-vaca tem-se na consideração de pessoa sábia e precavida; um bom gestor para os tempos difíceis (minimiza os gastos e junta todos os cêntimos). E na sua lógica distorcida – e isto é capaz de o jurar a “cascos” juntos – os tempos são sempre de crise.

Esquecendo as razões mais profundas e observando o comportamento sensível (segundo a tradição filosófica), apresentam-se três formas de avareza: a descarada, a mascarada e a música pimba.

A descarada, encontramos, por exemplo, naquele tio afastado que junta todo o tipo de tralha inútil, tipo canetas Bic sem tinta ou lâmpadas fundidas. Ou na prima Augusta que vive numa mansão com aquecimento em todos os quartos, mas que teima em não o ligar antes do natal, mesmo que esteja toda a gente a bater o dente e com duas estalactites no nariz. Ou ainda no Presidente da Junta de Pardiola Velha, que num belo dia se lembrou de desligar o motor do automóvel para poupar gasolina, trancou a direcção do veículo e foi espetar-se no galinheiro da Ti Zea. Lembro-me de um tipo que comia com o prato dentro da gaveta para poder fechá-la e não ter que oferecer se algum inoportuno (vulgo chato) aparecesse à hora das refeições.

A segunda (mascarada), consiste em casos como o do gerente que oferece um automóvel à “competente” secretária, mas sem combustível, porque está pela “hora-da-morte”. O supra-sumo: oferecer roupas para obras de caridade, mas não sem antes ter tirado todos os botões (“Para uma eventualidade, sei lá…”).

A música pimba é a mais grave das formas, porque pode sempre fazer-se melhor. Poupa-se muito na qualidade. E não me digam que é por incompetência.

Sabem que mais? Já estou a gastar muitas palavras. Não levam nem mais um ponto final.

Avareza - Por Ruben Andrade

Foto: Ruben Andrade :: Modelo Fátima Joaquim

Livros de uma vida #8

Publicado por: Ana Martins   
4 de February,
2010

o fio das missangas

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LIVROS DE UMA VIDA

04-02

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<p style=”text-align: center;”><span style=”color: #333333;”>.</span></p>
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<p style=”text-align: center;”><img title=”Marco_foto” src=”http://anamartins.com/wp-content/uploads/2010/01/Marco_foto.jpg” alt=”Marco_foto” width=”122″ height=”176″ /><img title=”cafeiris” src=”http://anamartins.com/wp-content/uploads/2010/01/cafeiris.jpg” alt=”cafeiris” width=”166″ height=”94″ /> <strong><span style=”color: #c0c0c0;”>Fui gentilmente convidada pelo </span></strong><a href=”http://www.facebook.com/group.php?gid=218265241018&amp;ref=ts”><strong>Marco Domingos</strong></a><strong> <span style=”color: #333399;”><span style=”color: #c0c0c0;”>a integrar a equipe do seu programa</span><span style=”color: #c0c0c0;”> matinal,</span></span></strong><strong> </strong><a href=”http://cafecomiris.blogspot.com/2009/12/livros-de-uma-vida-cap01.html”><strong>Café com Irís</strong></a><strong><span style=”color: #c0c0c0;”>, na</span></strong><strong> </strong><a href=”http://www.radios.pt/portalradio/Sintonizador/?radio_id=194&amp;scope=0″><strong>Rádio Irís FM</strong></a><strong> <span style=”color: #333399;”><span style=”color: #c0c0c0;”>-</span><span style=”color: #c0c0c0;”> 91.4 </span><span style=”color: #c0c0c0;”><span style=”color: #c0c0c0;”>-</span> com</span><span style=”color: #c0c0c0;”> uma rubrica de literatura: a cada terça e quinta-feira, às 9:45h</span></span></strong><strong> </strong><strong>«LIVROS DE UMA VIDA»</strong></p>
</blockquote>
<p style=”text-align: justify; “>clique em baixo para ouvir-me:</p>
<p style=”text-align: justify; “><img title=”Ana Martins” src=”http://anamartins.com/wp-content/uploads/2010/01/Ana-Martins.JPG” alt=”Ana Martins” width=”220″ height=”220″ /></p>
<h3>LIVROS DE UMA VIDA</h3>
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<p style=”text-align: justify; “><strong>21-01</strong></p>
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«O fio das Missangas» de Mia Couto

O escritor moçambicano Mia Couto comete o ‘pecado imortal’ na sua narrativa ‘perfumegante’ de inventar novas palavras como as que uso hoje, de nos deixar os ‘olhos cristalindos’
Na sua ‘lenga-lengação’ podemos descobrir personagens como a “Isadorangela” (tão gorda que tem dois nomes em um), de palavras cheias de sentido ‘homosensuais’ a expressões perfeitas como ‘sexo à primeira vista’ ou ‘chorar babas e aranhas’.
Marco e digo-te como ‘penúltimato’: Hoje vou optimizar (com “P”) o tempo dos «Livros de uma Vida» a brincar com a poesia das palavras de Mia Couto! Queres melhor justificação porque não precisamos acordo ortográfico para ler a alma lusófona!?

«Na minha vila, a única vila do mundo, as mulheres sonhavam com vestidos novos para saírem. Para serem abraçadas pela felicidade. A mim, quando me deram a saia de rodar, eu me tranquei em casa. Mais que fechada, me apurei invisível, eternamente nocturna. Nasci para cozinha, pano e pranto. Ensinaram-me tanta vergonha em sentir prazer que acabei sentindo prazer em ter vergonha. (…) Agora, estou sentada, olhando a saia rodada, a saia amarfanhosa, almarrotada. E parece que me sento sobre a minha própria vida.»

«O fio das Missangas», Mia Couto, Editorial Caminho, 2004

Ana Martins, escritora “por cristalino deleite”

Publicado por: Ana Martins   
3 de February,
2010

Esta é a entrevista que eu dei à Alagamares Associação Cultural publicada agora no seu site depois da participação no Encontro Literário da Alagamares de Novembro passado, brilhantemente apresentado por Miguel Real, sendo eu uma dos cinco autores convidados (para ler sobre esse encontro já publicado neste site de ganga vestido, basta clicar no link do Encontro Literário da Alagamares).


*entrevista conduzida por Fernando Morais Gomes

A Ana Martins é uma escritora sintrense já com alguma visibilidade. Como e porquê decidiu começar a escrever?

Na verdade sempre escrevi. E se inicialmente de uma forma muito natural e direccionada – manter correspondência por cartas a amigos, hábito que ainda tento manter com grande dificuldade devido ao imediatismo da escrita via internet – recordo o momento de me ter libertado do formato “carta” ou de escrever direccionado a um determinado remetente. Eu não escrevi diários, nem escrevia para mim então dei-me conta que escrevia simplesmente. Pelo cristalino deleite que tanto me apazigua de o fazer.

Como definiria a sua escrita?

Não gosto de rótulos. Gosto de escrever de forma acessível, mas não penso que tenha de ser eu a qualificar. Deixo-vos duas visões de quem muito considero. Vasco Catarino Soares escreveu sobre mim: “Ana Martins constrói texto de português fluente, de significados claros, imagens nítidas e dá-nos janelas de vidas que pouco conhecemos” e Miguel Real para além de me considerar “a Rui Zink de Sintra” refere “a perplexidade positiva com que Ana Martins enfrenta a vida através do que escreve”.

Tem alguma referência literária nos autores contemporâneos?

Tenho uma regra que sigo: se leio não escrevo, se escrevo não leio. Há uma porta que se fecha entre a Ana leitora e a que escreve de igual forma compulsivamente. Assim, logo com autores favoritos, não incorro no perigo de embalar, ir atrás e deixo fluir apenas o meu eu. Contemporâneos, escolheria o americano Chuck Palahniuk e a francesa Anna Gavalda.

A temática do autismo tem sido presença na sua obra. Qual o testemunho e a mensagem que uma obra literária pode dar destas temáticas?

Autismo é um ilustre desconhecido. Precisa de um mestre-de-cerimónias que faça as honras e o apresente. Escrever entrando numa mente autista torna-a perceptível à população que se designa de normal. Existe um medo latente e perene pelo que se desconhece e o autismo será o bicho papão das deficiências por não estar estampado no rosto, por a todos, até com quem lida, ser tão estranho e desconcertante. Dar a conhecer, elucidar mentes, desmistificar o folclore em torno do autismo, já me parece, por si só, razão suficiente para continuar a escrever sobre um tema que nunca pensei vir a ter um acesso tão intenso.

Qual o papel que os blogues e as redes sociais podem ter na difusão e aparecimento de novos autores?

Não será tanto o mérito dos blogues e das redes sociais, mais o desmérito das editoras que, estando em período de convulsão, não acompanharam o ritmo vertiginoso com que se propaga algo online. Obviamente que aparecem novos autores que seriam barrados pelos barões editoriais, até têm direito ao seu momento de fama, mas a triagem é plena de senso e os bons autores, esses, não são perecíveis.

Acha que de certa forma todas as obras são autobiográficas e que se escreve sempre o mesmo livro?

Os clichés servem para se brincar com eles. E há autores que o fazem com a sua obra. Nem toda será autobiográfica – o tema esgota-se – nem todas as personagens são fruto de uma imaginação genial. Explico, no meu caso. Observo, retenho, rabisco, guardo. Imagens, fragmentos de conversas, expressões, gestos, cheiros, olhares, sensações, emoções, sentimentos. Armazeno. Um dia escrevo algo tonto sobre as riscas coloridas das meias numa personagem e sei que memória acordou em mim. Muitas vezes estou plenamente convencida que é puro processo criativo, mas nem que seja depois, a assinar um autógrafo, a imagem aparece. Aquele momento armazenado foi “Frankensteinizado” com tantos outros numa mescla que me embusteia todos os sentidos e, por vezes, confesso nem reconheço os elementos repescados pelo meu subconsciente. O objecto retratado então jamais se (re)vê. Tenho esse cuidado e respeito-o de forma bem consciente. Se acaso quero fazer uma dedicatória a alguém em especial, faço-o combinando com o visado, para que se sinta confortável ou que nunca algum leitor para além de nós dois entenda quem possa ser o visado. Nem os amigos próximos! Nesse aspecto sou bastante rigorosa. Por isso chamo a este um processo de “Frankensteinização”, tanto é o coze e recorta executado em cada personagem. Como disse, pode ser um olhar, uma expressão, um gesto largo, ou algo tonto como a cor das peúgas.
E perguntava ainda se escrevemos sempre o mesmo livro? Não. Não para quem tem sempre a mente a fervilhar com tanta ideia nova. Se as possibilidades de “Frankensteinização” são ilimitadas, então para quê repetir!? Seria um aborrecimento! Criar é a parte mais bonita e apelativa do acto de escrever. Repetir o mesmo livro, a mesma ideia? Ora, nem pensar!!

Quais são os principais problemas com que se depara na edição e difusão da sua obra?

Exactamente o que atrás referi. O mundo pulou e avançou. Os barões assinalados casaram no Restelo com o velhinho. Digo-o com leveza, mas encaro-o com enorme seriedade. É o fim de uma era. Não creio contudo que o livro físico alguma vez morra. Mas há que caminhar a passo com a vida, sob pena de se ser trucidado. Penso que o mundo editorial terá de se reinventar para que se cubra de novo com a capa da credibilidade. Merece-a.

Planos para o futuro?

Sim, muitos. Como todo o mundo os tem. Alguns concretizáveis, outros nem tanto, a maioria a acontecerem a seu tempo de forma bastante serena. Não vivo no futuro, mas no presente. E é neste que se constrói o porvir.

Como vê o futuro da literatura portuguesa, em termos de temáticas? O acordo ortográfico é vantajoso?

Temáticas? As de sempre. Abordadas de forma diferente. Afinal… a acreditar que todas as estórias já foram escritas, caramba!, que o façam de forma original! Haverá ainda mil maneiras diferentes de escrever sobre o filho pródigo ou contar uma bela estória de amor. Haja engenho e arte!! Já quanto ao acordo tenho as minhas fortes reservas. A servir realmente a homogeneidade, que tal seguir como fio condutor o português de Portugal? Se nos perguntarmos a quem serve melhor o acordo, certamente não ao nosso país. Não somos uma ex-colónia lusófona. Somos a nação mãe. O exemplo deveria ser o nacional. Não o de um qualquer outro país. É a minha posição, vale o que vale. O acordo está aí e até ver está para ficar. O tempo dirá se desta feita o velho do Restelo sou eu.

Dos livros que já escreveu como os classificaria, individualmente?

Os que escrevi? Mas então terei de contabilizar os que deram à estampa pela via tradicional e os que estão em gaveta e escolhi não publicar… ainda.
O primeiro – um romance de Amor – classificaria de INOCENTE. Tem a ver com a estória enternecedora que conto, com a ainda pouca maturidade que sinto hoje na minha forma de escrever à altura. É um romance escrito em Português e Espanhol, escrito como se fosse a quatro mãos.
O segundo – um romance de conversas entre três mulheres – classificaria de DENSO. Não é um livro leve, nem as protagonistas mantêm conversa tola que tão bem as mulheres sabem fazer, dizem. Bom, não todas, definitivamente não as minhas três personagens, uma casada, uma divorciada, uma solteira.
O terceiro – uma colectânea de contos – classificaria de VERANIL. Dois contos são de minha autoria. Publicado em 2004 fruto de um concurso sob o tema «Contos de Verão», originou um livro com mesmo nome. Os trinta melhores contos seriam publicados. Concorri com duas candidaturas e ambas ganharam.
O quarto – um romance sobre o tema autismo – classificaria de MARCANTE. Foi o único que até hoje permiti ser distribuído pelo sistema vigente. Publicado em 2006 com o título «Autista, quem…? Eu?» continua actual e a ser vendido. Neste 4º ano de vida, o livro é requisitado por jovens estudantes, um público que não esperava e me deixou perplexa. Marcante na vida de tanto leitor que depois de me ler, me tem vindo a confidenciar ao longo dos anos que seguiu área de saúde, fez mestrado em Educação Especial, tomou novo rumo devido às minhas palavras. Marcante para mim, enquanto autora, por esta responsabilidade acrescida que me deixa imensamente grata. Tem nova edição a sair. Não chegou para os alunos este ano lectivo, o que deixou triste não ter podido chegar a tantos quanto o desejavam, mas particularmente grata.
O quinto – um romance em forma de pequenos contos todos imperceptivelmente interligados, como se uma fina linha a todos alinhavasse – classificaria de DESTEMIDO. Violência doméstica não é para ser calada nunca, essa é a maior arma do agressor: o medo e o silêncio. A ser equacionada a sua publicação. E a ser, será este ano.
O sexto – continuação do romance sobre o tema autismo – classificaria de TOCANTE. Sempre foi planeado ser uma trilogia, pelo que tenho neste momento em mãos o segundo romance. Este romance demorou a sair de mim, apesar de estar mentalmente escrito desde o inicio do projecto, o facto de o classificar de tocante, penso que justifica a demora. Antes do leitor, tocou-me da forma mais intensa. Foi um parto difícil e muito desejado pelos leitores do primeiro. Vai estar disponível ainda este ano. Fica aqui a minha promessa.

Livros de uma vida #7

Publicado por: Ana Martins   
2 de February,
2010

plenilunio

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Marco_fotocafeiris Fui gentilmente convidada pelo Marco Domingos a integrar a equipe do seu programa matinal, Café com Irís, na Rádio Irís FM - 91.4 - com uma rubrica de literatura: a cada terça e quinta-feira, às 9:45h «LIVROS DE UMA VIDA»

clique em baixo para ouvir-me:

Ana Martins

LIVROS DE UMA VIDA

02-02

«Plenilúnio» de António Muñoz Molina

Hoje, em fase de lua cheia (e plenilúnio quer dizer lua cheia) não trago um livro fácil. É um murro seco no estômago – de uma escrita carregada, obcecada, mas com um traço poético – que fala sem pruridos, sem bolinha no canto de um tema perturbador. Pretende explicar a mente de um pedófilo.

Pessoalmente o mais perturbador que li nesta obra sublime de António Muñoz Molina foi, de uma vez, entender o que sente uma menina que é subitamente atacada, como a sua mente infantil e inocente interpreta gestos, actos e odores que não povoam – não povoavam! – a sua cabeça, a sua candura. E quebram-na, Marco. Para sempre. Por estranho que possa parecer o que vou afirmar… sexo é o de menos mau que acontece a uma criança violada. Porque estragam-na como pessoa para todo o sempre.

«Atravessa ele também, e outro toque de buzina muito violento fá-lo estremecer, como se o despertasse de sonho em que não sabia que tinha caído, sonâmbulo sem se dar conta, por tantas noites a dormir pouco ou sem dormir, pelo trago de rum e pela excitação nunca mitigada do segredo inviolável. A condutora de um carro insulta-o pela janela, agitando uma mão com pulseiras e unhas vermelhas, «pasmado», diz-lhe, «não tens olhos na cara?», e ele cora até à raiz do cabelo, desta vez sim, vermelho como um idiota, todo o corpo reage, as costas, as virilhas, as palmas das mãos, finca as unhas com os dois punhos serrados, tinha de ser uma gaja, pensa, diz em voz alta enquanto alcança o outro passeio, volta-se para responder e o carro já passou, mas ainda vê a mulher furiosa agitando as mãos, e duas crianças de seis ou sete anos que o olham com um ar idêntico de indiferença e de troça, as caras esmagadas contra o vidro traseiro, menino e menina com uniforme de colégio de freiras, meninos bem, filhos de papá, o carro é um Volvo, de certeza que o cabrão que o comprou não tem de se levantar às quatro e trabalhar mais horas que as do relógio para pagar as letras: que sentiria a gaja, tão soberba, com as suas pulseiras e as suas unhas vermelhas, se o menino ou a menina saíssem à rua e tardassem em voltar, ou não voltassem nunca?»

«Plenilúnio» António Muñoz Molina, Editorial Notícias, 1998

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